terça-feira, 12 de maio de 2015

Filosofia e Religião: A Crise do Compromisso.



Nestes dias, estava lendo algo sobre as relações entre filosofia, ciência e religião. A perspectiva interpretativa aberta por Bertrand Russel desperta bastante interessante, pois retoma as concepções usuais atribuídas aos termos. Comumente, a ciência recebe o título honorífico de detentora das realidades comprovadas. A ciência moderna exerceu aquele papel que durante o medievo era prerrogativa exclusiva da religião.
Na modernidade filosófica, a religião começa a falar baixinho e se amedronta diante do vozerio da ciência. A religião se desinteressa sempre mais das repercussões sociopolíticas conhecidas nos séculos medievais. É assim que a religião moderna se torna assunto privado, vivenciado entre as paredes das igrejas ou dos lares com estas relacionados.
A religião moderna se torna intimista e vítima do solipsismo, enxerga apenas a si mesma. Lugar de sentimentos repletos de oscilações e imprevisibilidades, a religião moderna é destronada pela razão e perde o seu papel de prestigiosa locutora de certezas.
Entre a hegemonia das certezas proferidas pela ciência moderna e as oscilações sentimentais da religião, Russel identifica um espaço precioso e perigoso, dedicado ao trabalho reflexivo. A fértil expressão utilizada por Russel identifica este espaço como “Terra de Ninguém”, como um lugar até então privo de demarcações e populações. Onde está a filosofia? Nas salas das universidades europeias? Nas grandes e renomadas universidades brasileiras? Nas bibliotecas frequentadas pelos estudiosos? Entre as barbas dos professores catedráticos?
Russel sopra sobre um perfil da filosofia que a mantém forasteira, livre dos pesos impostos pelo politicamente correto. A filosofia está sempre pronta para partir, gentilmente agradece aos convites que pretendem hospedá-la nos convencionalismos e modismos culturais dos nossos dias.
Entre as pretenciosas certezas da ciência e os confusos discursos da religião, a filosofia apresenta-se qual abrigo salutar de tantos conflitos. Dentre estes, caberia ressaltar aquela anemia cultural que tanto tem nos caracterizado. Priva de forças culturais, a sociedade contemporânea nas suas várias instâncias, tornou-se hábil na arte de importar e perdeu a sensibilidade imprescindível para a arte de criar.
O vasto edifício cultural, construído precedentemente parece não ter nos enriquecido, mas sim nos enrijecido, nos paralisado. A herança cultural que recebemos teria nos reduzido a simples reprodutores improdutivos? Desde quando se começou a banir dos vocabulários culturais as noções que remetem ao compromisso? Incapaz de definir-se, a cultura hodierna que chama a si mesma de pós-moderna, cancelou os compromissos familiares, aqueles político-partidários e até mesmo os compromissos religiosos.
Hoje, diante do multiplicar-se de religiões, vê-se a desintegração do compromisso no âmbito da religião. Não importa o discurso em si, mas sim o que provoca em mim. É proibido mudar-se e, portanto quando o discurso não mais responde aos apetites, providencia-se outro melhor, mais confortável aos ouvidos.
Não sei com quais critérios, mas a sociedade contemporânea tem-se mostrado ágil na fabricação de novas religiões e novos deuses, todos à luz da própria imagem e semelhança.

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